terça-feira, 26 de novembro de 2013

Qualquer um pensaria em se matar, diz brasileira solta na Rússia


Imagem: Greenpeace
Nos quase dois meses em que esteve encarcerada na Rússia após participar de um protesto contra a exploração de petróleo no Oceano Ártico, a bióloga brasileira Ana Paula Maciel diz ter enfrentado os dias mais difíceis de sua vida.

Sem saber o que lhe aconteceria, a ativista do Greenpeace afirma ter cogitado se matar. "Acho que qualquer um numa situação daquela pensaria nisso", diz Maciel, em entrevista por telefone à BBC Brasil desde São Petersburgo.

Ela logo enterrou a ideia, contudo, por achar que ainda pode fazer muita diferença e que seria mais útil à causa fora da prisão do que morta.

Maciel foi presa com outros 28 ativistas (além de dois jornalistas freelancers) em 19 de setembro, após integrar um protesto em alto-mar diante de uma plataforma da estatal russa Gazprom, que deverá ser a primeira a extrair petróleo no Ártico.

Eles tentavam afixar uma faixa na plataforma e dizem ter agido pacificamente. Autoridades russas afirmam, no entanto, que o grupo pôs em risco as instalações.

Mesmo solta, Maciel ainda não pode deixar a Rússia e será julgada por vandalismo, crime punível no país com até sete anos de prisão.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Como foi o período na prisão?
Esses dois últimos meses foram os mais difíceis da minha vida. Embora as condições dentro da cela fossem toleráveis, os horrores psicológicos e físicos de estar 23 horas por dia dentro da cela – tínhamos uma hora para caminhar – e a insegurança de não saber o que estava acontecendo, e por que estava acontecendo, a injustiça da situação, eram a parte mais difícil de estar na cadeia.

Quais são seus planos para as próximas semanas?
O caso ainda não acabou e esperamos que percebam que não somos criminosos e arquivem as denúncias para podermos ir embora rápido. Também esperamos que sigam a lei marítima e soltem o Arctic Sunrise (navio do Greenpeace), que ainda está retido no porto de Murmansk.

Por enquanto, temos que esperar em São Petersburgo para procedimentos de investigação, mas somos pessoas livres aqui e essa sensação é maravilhosa.

Nossas famílias estão vindo para nos visitar e temos todo o apoio do Greenpeace. Estamos muito felizes e esperando para ver como as coisas se desenvolvem de agora em diante.

Não teme ser condenada no processo?
Não. Se a Justiça da Rússia for justa, não serei condenada por algo que não fiz.

O que a levou ao Ártico?
Queríamos chamar a atenção do mundo para as questões da exploração de petróleo no Ártico. É um ambiente imaculado, onde é praticamente impossível limpar vazamentos em dois terços do ano, quando o mar está congelado.

E se uma explosão acontece, como no caso Deepwater Horizon, no Golfo do México, não há forma nem infraestrutura para limpar isso.

Sabiam que havia riscos de serem presos?
Nós sabíamos que acusações sem razão poderiam ser aplicadas por causa de uma reação exagerada do governo, já que a Gazprom (estatal russa de energia) é uma organização muito poderosa politicamente.

Sabíamos que, para proteger os interesses da indústria petrolífera, isso poderia acontecer. Sabíamos que havia riscos, mas para mudar o mundo temos que corrê-los, não é?

No diário que manteve enquanto esteve presa, publicado pela Folha de São Paulo, você escreveu que, como bióloga, conhecia "muitas formas de acabar com a agonia de um ser vivo, formas quase indolores e bem rápidas". Pensou em se matar na prisão?
Acho que qualquer um numa situação daquela pensaria nisso. Foram altos e baixos dentro da cela.

Mas, na verdade, embora nos momentos baixos me permitisse pensar nessas coisas para desabafar, sei que não faria nada desse tipo. Acho que ainda posso fazer muita diferença e que sou mais importante fora da prisão do que ali dentro.

Sentiu-se amparada pela diplomacia brasileira enquanto esteve presa?
No mesmo dia em que o navio chegou em Mursmank com o reboque da guarda costeira russa, uma secretária do consulado de Moscou já estava lá me esperando. Na verdade, me surpreendi com a notícia de que a presidente Dilma pediu pessoalmente para o ministro de Relações Exteriores achar solução para mim junto com o ministro de Relações Exteriores russo.

Recebi todo o apoio e ainda mais do que estava dentro do alcance deles.

Executivo e Judiciário são poderes separados na Rússia, então eles não tinham muito mais a fazer, embora eu ache que a pressão política ajudou bastante na decisão de nos libertarem sob fiança.

No dia em que fui libertada, o ministro de Relações Exteriores me telefonou e disse que estava feliz por eu estar fora da cadeia e ter sido a primeira dos 30 do Ártico a ser solta, e que continuaria trabalhando para que tudo isso acabasse e eu tivesse a liberdade definitiva garantida.

Que causas ambientais lhe são relevantes no Brasil? A exploração de petróleo nos mares do Brasil também a preocupa?
Minha história com o Greenpeace começou em 2006, quando fomos para a Amazônia protestar pacificamente contra a plantação de soja. Foi uma campanha enorme e tivemos muitos sucesso. Empresas europeias disseram que não comprariam soja de áreas novas de desflorestamento.

Foi uma campanha muito importante, porque a Amazônia é tão importante para mim quanto o Ártico.

Em 2009, estava no Arctic Sunrise outra vez, e fizemos um protesto em alto-mar contra ideia de que a Petrobras instalasse uma plataforma de petróleo muito próximo do parque marinho de Abrolhos. Tenho causas queridas no Brasil e vou continuar trabalhando nelas.

Como pretende se manter ativa enquanto espera pelo julgamento?
Meu objetivo é continuar com a campanha para salvar o Ártico e fazer essa mensagem chegar ao maior número de pessoas que estejam dispostas a escutar.

João Fellet 
BBC Brasil
BBC Brasil
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