terça-feira, 11 de março de 2014

Jogador Tinga, vítima de preconceito, afirma que cotas raciais são erradas e injustas


Imagem: MarcosNagelstein/Vipcomm
RIO - “Vamos falar de qualquer coisa que não seja futebol”, pede Tinga ao atender o telefone. Com a serenidade que demonstrou dentro de campo ao longo da carreira, Paulo Cesar Fonseca do Nascimento quer falar sobre preconceito, política e educação em entrevista ao GLOBO. Vítima de racismo no primeiro jogo do Cruzeiro pela Copa Liberadores, no Peru, ele faz questão de salientar que a sociedade brasileira está longe de estar livre do problema. E vai além: diz que o seu caso é mais um entre as dezenas de agressões raciais que acontecem diariamente.


Dentro e fora dos gramados, os episódios se acumulam. Na última quarta-feira, o árbitro Márcio Chagas da Silva encontrou bananas em seu carro após apitar a partida entre Esportivo e Veranópolis pelo Campeonato Gaúcho. Na quinta-feira, o volante Arouca ouviu insultos racistas na vitória do Santos sobre o Mogi Mirim pelo Paulistão.

Com a segurança de um meio-campo experiente, ele comenta os acontecimentos recentes e está antenado às mudanças pelas quais o Brasil está passando. Ao citar a Democracia Corintiana como exemplo, o jogador do cruzeirense mostra fazer parte de um grupo seleto de atletas que entendem que o esporte também pode ser um instrumento real de mudanças políticas. Aos 36 anos, respeitado por onde passou, ele se orgulha de ter sido alfabetizado pela bola. Tinga é um dos casos raros em que um clichê do mundo do futebol se aplica com perfeição: é, de fato, um jogador diferenciado.

O incidente no jogo contra o Real Garcilaso aconteceu há quase um mês e nenhuma punição foi anunciada até hoje. Você recebeu algum contato da Conmebol (entidade que organiza campeonatos de futebol na América do Sul) nesse sentido? Eles ofereceram algum apoio psicológico?

Não se falou nada. A Conmebol está vendo uma punição, mas ainda não decidiu. Em relação a mim, não preciso (de auxílio psicológico). Preconceito é uma coisa que vivo em todos os momentos, em todas as situações. É geral, não é só o meu caso. Não quero que o fato que aconteceu comigo seja tratado com um grau de importância maior. O preconceito é uma realidade aqui. Vivemos diariamente a discriminação racial e social. Para quem nasce pobre, como eu nasci, e negro, o maior preconceito sofrido é o social. A gente tem que tentar se adaptar e vai vivendo. A minha esposa é branca e é casada comigo há 18 anos. As pessoas olham para ela e olham para mim de um jeito diferente. Nós temos que acabar com esse tipo de pensamento. Para isso, precisa de educação. As pessoas são ignorantes. É o que sempre digo: a mudança começa em casa. Depois disso tudo, tive uma reunião com meus filhos para ensiná-los sobre o assunto.

Você jogou e foi ídolo na Alemanha, um país com um passado de preconceito muito forte. Na sua opinião, a situação lá é pior do que a brasileira?

A Alemanha foi um lugar onde eu me senti bem. Tive oportunidade de viver no Japão, em Portugal e na Alemanha. Na época, fiquei com receio de ir jogar no futebol alemão. Achei que a vida de um negão como eu lá seria difícil. No entanto, foi o país onde tive mais sucesso, o país onde eu mais aprendi como homem. Por isso é que agradeço muito ao futebol. Eu não tive oportunidade de estudar. Foi o esporte que me deu oportunidade de aprender e ter um crescimento como um homem. Na Alemanha eu não era julgado, recebi muito respeito. Aqui, em qualquer área, você é analisado. Em qualquer situação, se você não estiver no padrão, é malvisto. Lá eu fui muito feliz, em todos os sentidos.

Você acha que o preconceito no Brasil é mais velado?

Com certeza. Se você souber onde pisar é bem melhor. Eu não vou jogar num lugar onde não gostam de um negro. Se as coisas forem explícitas, eu posso fazer uma escolha. No Brasil a gente fala de igualdade, mas esconde o preconceito. A gente fica fingindo que todos são iguais.

Seus filhos já sofreram algum tipo de discriminação?

Eles não sofrem. Eles têm uma qualidade de vida melhor. E nós também cuidamos para que eles não tenham preconceito. Eles levam algo de casa. Minha maior preocupação é como eles vão tratar as pessoas. Falei pra eles: “Vocês viram o que aconteceu com o seu pai. Vocês não podem fazer isso nunca”.

Você deve ter acompanhado o caso do ator Vinícius Romão, confundido com um bandido e preso por 16 dias...

É um prejulgamento, né? É dificil você se confundir se o cara estiver de terno e gravata. Ele foi muito sábio nas palavras dele. Ele perdoou as pessoas, está corretíssimo. Fico feliz quando alguém sofre injustiça e não ataca o outro com raiva. O segredo da mudança é pensar no outro. Ele pensou na moça que o acusou injustamente. Ele está sendo grande demais.

Você disse que não teve estudos formais. Como é sua formação política?

Graças a Deus, hoje eu me sinto bem para falar sobre qualquer assunto. Sempre fui curioso e gostei de perguntar, de saber mais. A gente vive um momento delicado no país. Desde a Copa das Confederações, o povo entendeu que tem voz e tem força. Agora, falta um norte. Pelo que vejo, cada pessoa grita por si. Um grita pela educação. Outro pela saúde. Outro pelo emprego. Precisamos gritar juntos. Isso, sim, seria o ideal.

Como assim?

O melhor protesto é voto. É o protesto mais coerente. A gente vota pensando no pessoal, todo mundo quer ser credor. Todo mundo quer saber o que vai ganhar com isso. Precisamos pensar no coletivo.

Recentemente, jovens pobres, supostamente assaltantes, foram perseguidos e linchados por grupos de “justiceiros” no Rio. O que você acha desse fenômeno?

Eu tenho 100% de certeza de que não é certo. Ninguém pode fazer qualquer tipo de julgamento. Nós temos que cobrar isso do governo. Que ele faça esse papel. Você imagina: pego um cara que assaltou alguém na esquina e bato nele. Ele pode voltar e assaltar alguém com uma violência ainda maior. Aí vira uma guerra. Ao bater em bandidos, estamos nos tornando iguais a eles.

E sobre cotas, qual é a sua posição?

Eu não concordo com cota para negros, concordo com cotas para pessoas de baixa renda. Fisicamente, o negro tem a mesma condição que um branco. O problema é que ele não tem a mesma condição de preparação que o branco. Por isso, que existam condições iguais. Meus filhos são negros, mas não vão usar cotas. Eles têm obrigação de passar: estudam em colégios ótimos. Eu, por outro lado, já precisaria usá-las, porque estudei em um colégio que não me deu ferramentas para passar em uma faculdade. Eu vim do Sul e lá é tudo muito misturado. No lixão tem alemão de olho azul. Se o critério for somente racial, ele não vai ter cota. Minha mulher entra nessa questão: ela também veio da Restinga, favela onde eu cresci, e passou pelas mesmas dificuldades que eu. É injusto que pessoas como ela não tenham acesso às cotas.

Voltando para dentro das quatro linhas: há preconceito no mundo do futebol?

Eu não sinto isso. Acho que é um esporte muito democrático. Nele, a gente vê saída para muita coisa. O futebol não tem barreiras. Dentro do vestiário e nos treinamentos, as diferenças vão embora. Quando você começa na base joga com muita gente de todas as classes sociais. Fora é que está o problema.

Falta posicionamento político dos jogadores?

Os jogadores precisam ser mais ativos na luta contra o preconceito de todo tipo, não somente o racial. Espaço a gente tem. A Democracia Corinthiana é um exemplo que ficou perpetuado, eles foram ativos. A gente poderia procurar isso. A gente tem espaço livre na mídia para se manifestar.

O movimento Bom Senso está fazendo isso, não?

O Bom Senso é somente para causas do futebol. Eu acho uma coisa mais particular, tem que ter propostas mais amplas.

Recentemente, o jogador Yaya Touré, do Manchester City, ameaçou um boicote de jogadores negros à Copa da Rússia, em 2018. O país é conhecido por atitudes racistas de suas torcidas.

Eu acho pertinente. Se os russos pensam assim, não podem sediar algo em que estarão pessoas de outras raças e crenças. Se eles não são democráticos nesse sentido, não podem usufruir do evento.

O esporte tem poder para mudar a vida das pessoas?

Eu fui alfabetizado dentro do esporte. Ele é muito importante para a sociedade. Na minha opinião, qualquer tipo de preconceito é falta de educação, por isso uma das grandes armas que nós temos aqui é investir no esporte. Eu fui educado assim. Minha mãe não tinha tempo de falar para mim o que era certo e o que era errado. A disciplina do esporte é que me educou. Cerca de 90% dos jogadores que começaram comigo não se formaram profissionais, mas eles se tornaram pessoas melhores. Levaram para vida o que aprenderam dentro do campo.

Depois de tantas entrevistas e tanta exposição, você se considera um símbolo da luta contra o preconceito?

É muito difícil se considerar alguma coisa. Sempre fui um cara muito reservado. Sempre gostei de ser valorizado pelo que construí. Ser um símbolo é algo que o tempo vai mostrar. O que eu quero é fazer o que sempre faço: ser participativo, ter voz ativa. Tenho meus projetos sociais em Porto Alegre, procuro me preparar para mostrar conhecimento e mostrar o que é certo ou não. Não posso falar que sou um símbolo. Um fato simples aconteceu, de uma coisa que acontece todos os dias, e as pessoas pegaram um gancho para falar sobre esse assunto.

*Entrevista publicada no Globo a Mais

Mateus Campos
Nelson Lima Neto
O Globo
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário

UOL Cliques / Criteo

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...