quinta-feira, 10 de abril de 2014

Onda de linchamentos se espalha pela Argentina e preocupa governo


Imagem: Reuters
Uma série de linchamentos em várias partes do país está preocupando o governo da Argentina e levou a presidente Cristina Kirchner a fazer uma referência ao problema em pronunciamento.

Nos últimos dez dias, a imprensa argentina relatou pelo menos dez casos de linchamento, com alvos em estado grave e uma morte.

"Precisamos de olhares e vozes que tragam tranquilidade, e não de vozes que tragam desejos de vingança, luta, ódio. Isso é ruim", disse Cristina, em referência indireta aos incidentes.

A presidente argentina responsabilizou "políticos mentirosos e sem escrúpulos" por incitar a violência no país.

"A violência gera violência, que se espiraliza", afirmou a chefe de Estado. O prefeito de Tigre, Sergio Massa, que também é líder do partido peronista Frente Renovador e um dos principais opositores do governo Kirchner, acusou as autoridades argentinas de ser responsáveis pelos linchamentos.

"Essas situações ocorrem porque há um Estado ausente, e a sociedade não quer conviver mais com a impunidade", declarou Massa.

"As pessoas precisam que o governo garanta o Estado de Direito e um sistema de sanções que reprima as condutas à margem da lei", acrescentou o opositor, provável candidato à Presidência do país em 2015, quando chega ao fim mandato de Cristina.

Insegurança

As afirmações de Massa refletem a frustração que toma conta de grande parte da sociedade argentina, devido a uma onda de roubos violentos o país. Não há estatísticas oficiais recentes, mas, nas últimas semanas, até políticos do governo admitiram que há um problema de insegurança na Argentina, algo que até este ano era negado pela Casa Rosada. Agora, o debate é sobre como responder à preocupação da população com a violência.

Para alguns políticos, os casos de linchamento são uma questão de "justiça com as próprias mãos". Para outros, mostram uma preocupante degradação social. "Voltamos ao Velho Oeste", disse Alfredo, porteiro de um prédio que, há alguns dias, defendeu um homem suspeito de ter cometido um roubo e que estava sendo golpeado por vizinhos no bairro de Palermo, em Buenos Aires.

"Se não tivesse protegido (o suspeito), o teriam matado. Estavam dando pancadas na cabeça, a intenção era matar", afirmou o porteiro ao canal de televisão argentino Todo Notícias.

No dia 22 de março, o jovem David Moreira, de 18 anos, morreu por causa de golpes recebidos em meio a uma multidão no bairro da terceira maior cidade de Argentina, Rosário, na província de Santa Fé.

Moreira foi capturado por vizinhos depois de supostamente ter tentado roubar a carteira de uma mulher que carregava o filho no colo. Desde a morte dele, foram divulgados pelo menos nove casos de linchamentos nas províncias de Santa Fé, Buenos Aires, Rio Negro, Córdoba e La Rioja. Apesar de não terem resultado em mortes, alguns resultaram em ferimentos graves para as vítimas.

Durante o último fim de semana, foi noticiado outro caso em Rosário no qual dois homens foram golpeados por vizinhos após serem confundidos com ladrões.

Imprensa e responsabilidade

Alguns analistas especulam que a grande atenção que esses casos têm recebido poderia estar estimulando a violência e até gerando um efeito de contágio. Outros especialistas responsabilizam a imprensa por aumentar o problema de insegurança na Argentina.

"Pode-se falar de insegurança, impunidade, inflação...mas, como cidadão, não gosto que o único (assunto) de que se fale em meu país seja esse", disse no domingo (30), em um programa de televisão popular, o ator e comediante Guillermo Francella, um dos mais famosos do país, que atuou no filme ganhador do Oscar "O segredo dos seus olhos".

Francella afirmou que vai à academia e faz ginástica assistindo televisão e, "em uma hora, não há uma notícia boa sobre meu país. Não acredito que meu país seja assim, todo ruim".

A opinião do ator coincide com a da presidente Cristina Kirchner, que, frequentemente, acusa os principais meios de comunicação argentinos de fomentar uma "cadeia nacional de ódio e desânimo".

Analistas de segurança consultados pela BBC dizem que, apesar de a televisão ter um papel nessa onda de medo, há também no país uma sensação de impunidade.

"Desde o começo do ano, uma pessoa foi assassinada a cada 27 horas na província de Buenos Aires, e uma pessoa morreu por dia em Rosário", apontou Luis Alberto Somoza, especialista em políticas de segurança e professor do Instituto Universitário da Polícia Federal Argentina (Iupfa).

"As pessoas sabem que a capacidade punitiva do Estado foi perdida. O delinquente entra e sai pela mesma porta, porque há toda uma corrente benévola quanto à aplicação do direito penal, e o delinquente não teme o castigo. Hoje, o delinquente não tem medo de sair e cometer crimes porque tem certeza de que não vai acontecer nada", disse.

Mais violentos

O advogado Luis Vicat, que já foi comissário da Polícia de Buenos Aires, acredita que o crime esteja mais violento por causa de um "ressentimento social" e pelo fato de que as vítimas estão sendo "objetificadas".

Vicat calculou que cerca de 80% dos delitos têm relação com drogas, algo que também torna os crimes mais violentos. Em Rosário, estima-se que pelo menos 200 assassinatos por ano sejam relacionados ao narcotráfico.

"Vamos caminhando para o que se tornou o México, onde os vizinhos criaram defesas civis para se proteger dos crimes", comparou o advogado.

Em seu discurso de segunda-feira (31), Cristina Kirchner reconheceu tacitamente que os crimes violentos têm um elemento de "ressentimento social".

"Quando alguém sente que sua vida não vale dois pesos para o resto da sociedade, não podemos exigir que a vida dos demais tenha, para ele, um valor maior que dois pesos", destacou Vicat.

Muitos pedem mais ações da polícia ou penas maiores para os crimes, mas a presidente afirmou que a solução passa pela ampliação da inclusão social.

"Não há melhor antídoto contra a violência do que conseguir que mais pessoas sejam incluídas", disse Cristina antes de anunciar novos programas sociais.

BBC Brasil
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