quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

No país que financiou a Beija-Flor, mais de 70% da população vive na pobreza


Imagem: Wikipedia
A Beija-Flor foi campeã do carnaval carioca em 2015 com um desfile quase perfeito, conquistando 269,9 pontos de um máximo de 270 ao cantar a história da Guiné Equatorial. Para chegar ao topo da Sapucaí, a escola de samba de Nilópolis contou com uma ajuda milionária do país africano, governado há 35 anos por uma ditadura. A nação é rica em petróleo, mas possui indicadores sociais que lembram o Brasil dos anos 1960. Lá, mais de 70% da população vive abaixo da linha da pobreza.


Além dos R$ 5 milhões recebidos da prefeitura do Rio de Janeiro, a Beija-Flor recebeu outros R$ 10 milhões da elite da Guiné Equatorial, segundo reportagem do jornal O Globo.

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A escola não confirma o patrocínio. Em nota enviada à BBC Brasil, afirma ter recebido "apoio cultural e artístico do governo da Guiné Equatorial". Na festa da vitória, o carnavalesco e presidente da Comissão de Carnaval da Beija-Flor Fran Sérgio disse que o patrocínio partiu de empresas que atuam no país africano. Para ele, “quem se incomoda com patrocínio é burro”.

Já o embaixador do país no Brasil, Benigno Pedro Matute Tang, que desfilou pela escola na madrugada de terça-feira (17), afirmou que empresários doaram poucas centenas de euros para a agremiação.

Mas de onde vem o dinheiro da Guiné Equatorial?

Antiga colônia espanhola, o país é comandado desde 1979 por Teodoro Obiang Nguema Mbasogo. Ele chegou ao poder por um golpe militar contra a ditadura de seu tio que já durava 11 anos. Francisco Macías Nguema foi condenado à morte e executado no mesmo ano.

De lá para cá, a Guiné Equatorial se tornou um importante explorador de petróleo, dando início à produção na década de 1990 e fazendo do óleo a sua principal fonte de renda.

Ao mesmo tempo, o líder do país se tornou um dos homens mais ricos da África, com fortuna estimada em US$ 600 milhões, segundo dados da revista Forbes para o ano de 2006. Sem contar a extensa lista de violações aos direitos humanos, segundo a ONG Anistia Internacional, desde execuções extra judiciais, tortura, prisões arbitrárias e repressão violenta a protestos.

A dependência do petróleo no país é extrema. Em 2013, o PIB da Guiné Equatorial chegou a US$ 15,580 bilhões, segundo o Banco Mundial — uma queda de 4,8% em relação ao ano anterior. Desse total de riquezas, 88,5% vêm das exportações.

Além de petróleo, o país também exporta madeira, cuja extração já esteve sob a responsabilidade de Teodoro Nguema Obiang Mangue, ou Teodorín, como é conhecido. Filho do ditador e um dos vice-presidentes do país, ele já foi o ministro da Agricultura e Floresta da Guiné Equatorial. Seu irmão, Gabriel, já ocupou também um cargo no ministério de Minas e Energia.

O dinheiro que entra na Guiné Equatorial vem dos países mais desenvolvidos do mundo. Seus principais parceiros comerciais são o Japão (destino de 18,8% das exportações em 2012), seguido por França (16,1%), China (11,7%), EUA (11,3%) e Holanda (7,2%).

Já a Guiné Equatorial compra sobretudo da Espanha, China, EUA, França e Itália. O Brasil foi o sétimo maior importador do país em 2012, segundo levantamento da CIA (serviço de inteligência dos EUA).

Pobreza

Apesar da riqueza, sua população vive em condições pobres. Em uma área equivalente ao Estado de Alagoas, vivem 722 mil pessoas, 60% delas na zona rural.

Segundo dados do Banco Mundial, a expectativa de vida ao nascer é de 52,6 anos —índice que o Brasil superou durante a década de 1960.

Da mesma forma, a taxa de mortalidade é uma das maiores do mundo: a cada 1.000 crianças que nascem, 96 morrem antes dos 5 anos de idade — índice muito próximo ao do Afeganistão, e também que remonta ao Brasil dos anos 1960.

A porcentagem de pessoas acima de 65 anos é de 3% da população total, índice pior do que o de países como o Haiti, Botsuana e Zimbábue.

A taxa de desemprego foi de 8% em 2013, segundo o Banco Mundial.

Não há informações abundantes sobre a quantidade de pessoas abaixo da linha da pobreza. O Banco Mundial, que reúne dados sobre o assunto, não possui um número dos que vivem no país com menos de US$ 1,25 por dia.

Mas o arquivo de dados da ONU (Organização das Nações Unidas) contém uma informação para 2006. Naquele ano, 76,8% da população vivia abaixo da linha da pobreza.

Corrupção

Um outro problema grave no país é a corrupção. O país é o 14º do mundo no quesito, segundo a lista da Transparência Internacional para 2013 (o país não apareceu no ranking de 2014).

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Teodorín já enfrentou processos nos Estados Unidos e na França por lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Em 2011, a Justiça americana tentou congelar seus bens no país — uma casa em Los Angeles avaliada em mais de US$ 30 milhões, um jato particular de US$ 38,5 milhões, uma Ferrari de US$ 500 mil e diversos itens de colecionador do cantor Michael Jackson, avaliados em US$ 2 milhões.

Segundo reportagens da BBC na época, para os EUA o motivo do processo seria a origem do dinheiro, supostamente obtido em esquemas de corrupção e pagamento de propina das indústrias petroleiras do país africano.

Seu salário é estimado em US$ 100 mil anuais, outro motivo para a investigação, já que sua fortuna foi calculada em US$ 300 milhões pelas autoridades americanas, segundo reportagem da CNBC.

Em outubro passado, um acordo fechado com a Justiça americana o obrigou a vender a mansão em Malibu e a Ferrari, mantendo os outros bens. Com o acordo, Teodorín evitou um processo criminal nos EUA.

Assim, tinha uma preocupação a menos na terça-feira, quando esteve na Sapucaí assistindo ao desfile da campeã.

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Diego Junqueira
R7
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