quinta-feira, 30 de julho de 2015

‘Sou ameaçada insistentemente’, afirma Beatriz Catta Preta


Imagem: Reprodução / Veja
A advogada criminalista Beatriz Catta Preta afirmou à reportagem do Estado que renunciou à defesa dos delatores da Operação Lava Jato porque “teme sofrer algum tipo de violência”. “Sou ameaçada de forma velada, insistentemente, por pessoas que se utilizam da mídia para tanto, bem como pelas declarações de políticos membros da CPI”, afirma Beatriz Catta Preta.

Ela decidiu encerrar sua carreira.

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O que a levou a sair de cena em meio ao maior escândalo de corrupção do País é que, em sua avaliação, é que o caso “tornou-se um jogo político”, atingindo a ela e a seus familiares. ”Minha atuação profissional sempre foi jurídica e, ao deixar de ser tratada assim, decidi encerrar minha carreira”, afirma.

Nas últimas semanas, Catta Preta vinha sofrendo forte pressão da CPI da Petrobrás. Aliados do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), queriam sua convocação para revelar a fonte de seus honorários. De imediato, a advocacia em todo o País reagiu, saiu em defesa das prerrogativas da classe e em defesa de Catta Preta.

A entidade máxima da advocacia, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), tomou para si o comando da reação por Catta Preta. Foi ao Supremo Tribunal Federal na quarta-feira, 29, com pedido de liminar em habeas corpus preventivo e obteve decisão do ministro Ricardo Lewandowski, presidente da Corte, que a desobrigou de prestar ‘quaisquer esclarecimentos’ à CPI.

Catta Preta é o artífice da Lava Jato. Pelo menos quatro delatores que defendeu e orientou abriram a fase mais explosiva da investigação porque revelaram a ação do cartel das empreiteiras, a corrupção em diretorias estratégicas da estatal e o envolvimento de deputados, senadores e governadores.

O primeiro delator foi o engenheiro Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Depois, o empresário Augusto Mendonça, o ex-gerente de Engenharia da estatal, Pedro Barusco, e o lobista Julio Camargo – este agitou o mundo político há duas semanas, quando declarou à Justiça Federal no Paraná, base da Lava Jato, que foi pressionado, em 2011, por Eduardo Cunha por uma suposta propina de US$ 5 milhões.

O relato de Julio Camargo irritou o presidente da Câmara que foi ao STF. Ele pediu que a Corte tire das mãos do juiz federal Sérgio Moro – condutor das ações penais da Lava Jato – o processo em que o delator o citou.

Nessa entrevista, Beatriz Catta Preta não cita nomes de integrantes da CPI, nem acusa Eduardo Cunha de ameaça-la. Mas se mostra preocupada e intimidada por “declarações de políticos membros da CPI”.

Confira a entrevista completa:

Por que a sra. renunciou à defesa dos colaboradores da Lava Jato?
Renunciei porque a situação deixou de ser jurídica. Tornou-se um jogo político, atingido a mim e meus familiares. Não quero, nem nunca quis, participar desse jogo. Minha atuação profissional sempre foi jurídica e, ao deixar de ser tratada assim, decidi encerrar minha carreira. Conta em minha decisão, também, evitar que meus antigos clientes fossem alvo de exposição indevida, ainda maior do que aquela já sofrida por eles, por conta de toda essa irresponsável especulação em torno de minha atuação como advogada.


Como ficam os colaboradores sem sua orientação?
Suas defesas estão bem encaminhadas e serão levadas a cabo por profissionais competentes, com toda certeza.

A sra foi ameaçada por algum político? Sente-se pressionada?
Sou ameaçada de forma velada, insistentemente, por pessoas que se utilizam da mídia para tanto, bem como pelas declarações de políticos membros da CPI.

Teme sofrer algum tipo de violência?
Sem dúvida. Ou o Sr. já ouviu falar, em meio a um escândalo de corrupção desta proporção, em uma advogada de defesa se tornar o alvo dos ataques políticos e jornalísticos? É uma inversão de valores e papéis gravíssima!

Sua renúncia pode comprometer as próximas etapas das colaborações?
De forma alguma.

No início, seu trabalho na Lava Jato foi criticado por seus colegas de profissão que atacaram a delação premiada. Depois, alguns criminalistas prestigiados aderiram à colaboração. A sra ficou magoada?
Pelo contrario. Sinto-me honrada de ter desbravado uma área de atuação na qual ninguém queria atuar e, depois, ver que os profissionais que antes me criticavam, ao ver os resultados do meu trabalho, passaram a atuar na plena defesa de seus clientes, deixando de abandoná-los quando sua escolha é a delação premiada.

A CPI convocou a sra. para questiona-la sobre os honorários advocatícios que recebeu na Lava Jato. A sra vai revelar essa informação? Por quê?
Absolutamente não. Trata-se de informação protegida pelo sigilo profissional. Meus honorários foram recebidos de forma legal, os impostos devidamente recolhidos, tudo declarado à Receita Federal do Brasil, e muito longe do valor surreal lançado na mídia. Se algum político desejava saber como ou quanto me fora pago algum valor por qualquer cliente, deveria ter perguntado aos mesmos, nas ocasiões em que estiveram na CPI, respondendo a todas as perguntas que lhe foram formuladas.

Vai se mudar para Miami?
O irresponsável que plantou tamanhas mentiras na mídia não tem idéia do que está dizendo. Inventou uma história nababesca e alguns jornalistas compraram, publicando-a sem checar a veracidade das informações. Foram usados para fins de mudar o foco do escândalo, quiçá de pessoa determinada. Estava de férias com minha família. Apenas isso. Viajei em junho, antes mesmo do pedido de convocação de minha pessoa ser apresentado na CPI. Repito: minha vida é pautada na mais absoluta legalidade e moralidade. Minha família nada deve a ninguém ou à Justiça.


Vai abrir escritório nos EUA?
Não vou abrir escritório nos Estados Unidos. Tenho uma empresa aberta naquele país e só. Não funciona e nunca funcionou. Foi aberta como um plano futuro, sem data preestabelecida, sendo certo que não fazia parte do plano a mudança de País.

Em entrevista ao ‘Estado’, em fevereiro, a sra disse que ‘delator não é traidor’. Mantém sua avaliação sobre o papel do colaborador?
Reitero tudo o que disse anteriormente.

O esquema de corrupção na Petrobrás, desmascarado pela Lava Jato, surpreendeu a sra? Em seus quase 20 anos de carreira trabalhou em alguma causa parecida?
O esquema de corrupção descoberto na Operação denominada Lava Jato, com a ajuda determinante dos réus colaboradores é único e surpreendeu a todo o País, dos mais ricos aos mais pobres. A causa mais próxima em que trabalhei, visando o combate à corrupção, foi o Mensalão, na qual obtive pleno êxito com o perdão judicial do único colaborador do esquema. Finalmente é importante deixar registrada a excelência do trabalho realizado pela Força-Tarefa da procuradoria da República em Curitiba e do Juiz Sérgio Moro.

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Fausto Macedo
O Estado de S. Paulo
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