quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Sem punição, transparência pode dificultar a redução da corrupção, diz pesquisador


Imagem: Divulgação
Nascido no Sri Lanka, o professor Michael Muthukrishna é um nômade. Já morou na Austrália, Botsuana, Canadá, Estados Unidos e, há um ano e meio, é professor na London School of Economics, onde vem estudando as conexões entre corrupção, economia e psicologia.



Especialista em Psicologia Econômica, ele publicou no mês passado um artigo na revista "Nature Human Behaviour", baseado em entrevistas e grupos de estudo com quase 300 pessoas, concluindo que a transparência só reduz a corrupção se existirem oportunidades econômicas, ou se o Estado for forte para punir quem desrespeita a lei.

Segundo ele, em países pobres, mais transparência acaba reforçando a impressão de que a maioria das pessoas é corrupta, e isso não ajuda a combater a corrupção.

Em seu mais recente trabalho, o sr. fala que a transparência pode não contribuir para reduzir a corrupção. Como isso é possível?
Na maioria dos experimentos que conduzimos, a transparência reduziu, sim, a corrupção. Mas, quando o potencial econômico [a capacidade de ganhar dinheiro por meios lícitos] de um grupo é pequeno e as instituições são muito frágeis para punir os transgressores, a transparência não ajuda, ou torna as coisas ainda piores. Nesse caso específico, o que acontece? A transparência revela que a corrupção e a propina são generalizadas e que não existem muitos meios legítimos de ganhar dinheiro. Isso as leva ao cinismo, a desistir, a dar continuidade ao status quo. "Se não pode com eles, junte-se a eles." Para que a transparência reduza a corrupção, é preciso que haja uma regra anticorrupção. Ou seja, que a população desaprove a corrupção como um todo e tenha consciência que os outros também a desaprovam. Num cenário ideal, não apenas a corrupção dos outros, mas também as pequenas formas de corrupção no dia a dia. Mas isso não vai acontecer se não houver formas legítimas de se ganhar dinheiro, ou se o Estado não tiver as ferramentas para impedir as pessoas de serem corruptas.

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Isso quer dizer que, em países pobres, a probabilidade de corrupção é maior?
A corrupção tende a ser maior em países pobres, mas nem sempre está claro se a pobreza cria as condições para a corrupção, ou se a corrupção é que torna esse país mais pobre. É um pouco das duas coisas. Num país pobre, você não tem outra escolha que não seja se fiar em pessoas como seus amigos ou família, porque não se pode confiar no Estado para cuidar de seus interesses. Isso cria uma cultura em que você tem compromissos com relação a eles; e eles, com relação a você. Se você mora num país como a Austrália, por exemplo, o governo irá ajudar a cuidar de você, pagar sua universidade. Você não precisa depender tanto de família ou amigos.

O Brasil se encaixa nesse cenário de pobreza?
Não. A recente performance econômica do Brasil e os indicadores de que o país pode estar saindo da recessão sugerem que o potencial econômico é bastante alto.

Em seu trabalho, o sr. também relaciona a corrupção a uma escala de cooperação. Pode explicar?
O que chamamos de corrupção está próximo da nossa natureza. Por exemplo, sempre vivemos em famílias ou pequenos grupos e sempre as priorizamos em detrimento de outras pessoas. Privilegiar nossos amigos e familiares é próximo da nossa natureza. Normalmente, as pessoas entendem isso como algo muito bom. Mas, quando um político ou um empresário prioriza seus amigos ou familiares, eles estão fazendo isso às custas de muitos outros.
As pessoas podem achar que agiriam de forma diferente se estivessem no poder. Mas, na verdade, se elas pensarem sobre seus comportamentos diários, perceberiam que agem de forma bastante similar a muitos políticos e empresários. Elas só não têm o poder de fazê-lo em uma grande escala, de maneira que prejudiquem milhares de pessoas ou um país inteiro.
Elas não estão ganhando bilhões; elas estão apenas fazendo pequenos favores a seus amigos e familiares.

Então, a questão não é sobre maçãs podres?
Exatamente. E isso é o que faz a investigação e o julgamento desses casos ser tão desafiador. A questão não é identificar e processar todos os agentes públicos corruptos, esperando que eles sejam substituídos por pessoas honestas. Você pode acabar prendendo o país inteiro, porque essas pessoas não corruptas podem não existir. A questão é punir pessoas em número suficiente para que outros comecem a mudar o seu comportamento.

Uma pesquisa Datafolha mostra que, desde 2015, a corrupção se tornou o pior problema do Brasil. É sinal de que as coisas estão mudando?
É um bom sinal que os brasileiros estejam identificando a corrupção como um problema, porque isso pode significar que existe uma regra anticorrupção no país. Mas é preciso garantir que essa indignação seja contra o fato de a corrupção existir, e não porque as pessoas não estejam se beneficiando disso.

A Lava Jato pode ajudar a criar uma mudança cultural?
Ah, sim. Existem coisas muito boas. O fato de as pessoas verem que isso está acontecendo é exatamente o tipo de mudança que é necessário. Não é mais "business as usual" [negócios como antes]. Quando isso acontece, elas vão refletir: e agora? O que é a regra? A expectativa é que você acabe num cenário em que a corrupção, a propina e a lavagem de dinheiro não sejam mais aceitáveis.

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Estelita Hass Carazzai
Folha de S. Paulo
Editado por Política na Rede
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