domingo, 1 de outubro de 2017

Carta ao PT foi escrita à mão por Palocci do cárcere


Imagem: Rodolfo Buhrer / Reuters
Na manhã da quinta-feira, 27, o detento Antônio Palocci Filho retomou as conversas com os advogados para montagem dos anexos de sua delação premiada, que é negociada com a força-tarefa da Operação Lava Jato. Foi quando recebeu pela primeira vez notícias da repercussão da bomba relógio colocada no colo do ex-presidente Lula: sua carta ao PT de desfiliação. Um artefato que atinge o coração do partido, criado pelos dois há 36 anos, que enfrenta sua pior crise.


A carta ao PT foi redigida por Palocci, de próprio punho, da cadeia e entregue aos advogados para ser digitada e impressa. O garrancho de médico virou três páginas e meia de um documento assinado por ele na terça-feira, 25. Explosivas, as palavras do ex-ministro da Fazenda de Lula e da Casa Civil de Dilma Rousseff foram endereçadas à presidente nacional do partido, a senadora Gleisi Hoffmann, no dia seguinte, a simbólica data de 26 de outubro, quando completou um ano de prisão.

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Cirurgicamente montada e retocada, a carta coloca o PT e Lula contra a parede, ao reconhecer que seus dois governos e de sua sucessora foram corrompidos pelo “tudo pode”, pelos “petrodolares”, defende um acordo de leniência para o partido e diz que ele acredita que o ex-presidente, um dia, fará o mesmo.

Uma das preocupações era não revelar fatos além dos que havia confesso 20 dias antes, diante do juiz federal Sérgio Moro, no processo em que é réu com Lula no caso do terreno do Instituto Lula e do apartamento de São Bernardo, que ocultariam propinas da Odebrecht. Qualquer revelação pode comprometer as negociações de delação com a Lava Jato.

No dia 6, Palocci confessou negociar propinas com a Odebrecht e incriminou Lula ao revelar um suposto “pacto de sangue” entre o ex-presidente e o empresário Emílio Odebrecht, em 2010, em que foi acertado R$ 300 milhões em corrupção ao PT.

Condenado a 12 anos de prisão em outro processo da Lava Jato, a estratégia foi buscar diretamente com o juiz federal Sérgio Moro uma via alternativa para obter uma redução de pena, ou um limitador, como colaborador da Justiça – paralelamente às tratativas da delação.

A carta lista 7 pontos sobre o procedimento aberto pelo PT contra ele e as afirmações que fez a Moro sobre seus crimes e os de Lula. Desde então, Palocci passou de quadro histórico do partido e da ascensão de operário a presidente – ele foi um dos mentores da Carta ao Povo Brasileira -, a inimigo número 1 dos petistas, em especial dos “fanáticos” lulistas. No libelo ele questiona: “somos um partido sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?”.

Mãe. Em seu ponto mais delicado para Lula, Palocci questiona a estratégia de defesa do ex-companheiro de atribuir à ex-primeira-dama Marisa Letícia (morta em fevereiro) as responsabilidades pelos “presentes” e cita o sítio de Atibaia (SP), “os apartamentos” – o triplex do Guarujá e o 121 do Hill House, em São Bernardo – e o imóvel para o Instituto Lula. Segundo os processos, bens dados em propinas ao ex-presidente.

Acusado de ser frio e mentiroso por Lula, no depoimento a Moro que o ex-presidente deu no dia 13, foi a menção à mãe, Antônia de Castro Palocci, que mais irritou Palocci sobre as respostas do ex-presidente, após ele confesssar seus crimes e sugerir que o ex-companheiro fizesse o mesmo.

Lula disse que gostou “muito do Palocci”. “Tive boa relação com Palocci, acho que o Brasil deve ao Palocci, mas lamentavelmente o Palocci se prestou a um serviço pequeno, porque inventar inverdades para tentar criminalizar uma pessoa que ele sabe que não cometeu os crimes que ele alegou é muito desagradável.”

“Eu fico pensando como é que está pensando a mãe dele agora que é militante do PT e fundadora do PT. Eu fico imaginando como estão as pessoas que militavam com ele no PT. É lamentável. Eu, sinceramente, não tenho raiva do Palocci. Não leve essa imagem que eu tenho raiva do Palocci. Eu tenho pena dele ter terminado uma carreira tão brilhante da forma como ele terminou.”

Na carta ao PT, Palocci escreve: “Fiz isso pela minha família”.

Cárcere. Na cadeia, Palocci virou “atleta”, título que divide com o presidente afastado da Odebrecht, Marcelo Bahia Odebrecht que está preso desde junho de 2015. Ele fechou acordo de delação premiada em dezembro de 2016 e aguarda até início de 2018 para progredir para a prisão domiciliar. Os dois estão em alas separadas da custódia da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba.

Detido na mesma cela que o lobista o operador de propinas Adir Assad, Palocci lê muito, escreve, mas principalmente se dedica a caminhar no exíguo espaço do cárcere.

Na manhã da última quinta recebeu os advogados ansioso por notícias. Além de ver jornais, quis saber sobre as primeiras impressões dos defensores sobre a reação pública e de aliados sobre sua carta de desfiliação.

As reuniões com os advogados Adriano Bretas, Tracy Reinaldet, André Pontarolli e Matteus Macedo nas últimas semanas são diárias – com excessão dos finais de semana, feriados e quartas, quando o dia é de visita da família. As conversas com os advogados se intensificaram depoiis que evoluíram as negociações com o Ministério Público Federal. Procurados, eles não comentaram.

Em quase quatro meses de tratativas com os advogados, Palocci já tem quase 50 anexos montados, que estão sendo discutidos com procuradores da força-tarefa. As negociações ainda não foram fechadas. O conteúdo atinge não só Lula e o PT, mas também Dilma, outras empresas ainda não pegas no radar da Lava Jato e bancos.

Considerado por investigadores um estrategista que ainda não falou tudo o que sabe, um ponto que incomoda a equipe é a suspeita de que Palocci esteja tentando preservar patrimônio. Se o acordo com o MPF for fechado, envolverá a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba e na Procuradoria Geral da República (PGR) e deverá ser homologado pela Justiça para que tenha validade.

A interlocutores, o ex-ministro revelou preocupação, ao redigir a carta, que o documento não soasse como um “recado” aos ex-companheiros.

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Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Júlia Affonso

O Estado de S. Paulo
Editado por Política na Rede
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