sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Governo Dilma abafou denúncias contra o COB em 2013, diz delator


Imagem: Igo Estrela / Getty Images
Agentes da Polícia Federal prenderam, na manhã da última quinta-feira, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e do Comitê Rio 2016 , Carlos Arthur Nuzman. Fato que só ocorreu graças à iniciativa de um ex-dirigente esportivo brasileiro: Eric Maleson, que foi presidente da CBDG (Confederação Brasileira de Desportos no Gelo). 



Ex-atleta de bobsled nos Jogos Olímpicos de Inverno, foi ele quem delatou Nuzman às autoridades francesas, fato crucial para a prisão do mandatário do COB. Mas em entrevista à ESPN horas após o agora ex-presidente do COB ser detido, Maleson deixou claro que a prisão poderia ter ocorrido há pelo menos quatro anos.

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"Tudo começou anos atrás, em 2013, quando eu me dirigi voluntariamente às autoridades da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Com isso, foi iniciada a 'Operação Cabo de Guerra'. Só que, naquela época, a Dilma Rousseff era presidente e o governador [do Rio de Janeiro] era o Sérgio Cabral. Então, apesar de a Polícia Federal ter feito o trabalho dela e muito bem feito, essa operação foi terminada", relembrou Eric. 

"A única coisa que posso falar, que eu sei, é que a ordem veio lá de Brasília para não continuar as investigações. Quero deixar aqui bem claro que fui muito bem recebido pela Polícia Federal. Ela fez o trabalho dela iniciando a operação, mas não conseguiu seguir. Os detalhes eu não sei, mas soube que houve pressão de Brasília para não continuar", acrescentou. 

Quatro anos depois da operação em cima do COB ao qual Eric Maleson se refere ter sido abafada, o fato é que, além de Nuzman ter sido preso, o ex-governador carioca Sérgio Cabral também está detido, além de Dilma Rousseff não ser mais a presidente do Brasil - ela sofreu impeachment no ano passado.  

"O que realmente impediu (a operação em cima do COB de 2013) é o fato de nós termos o Sérgio Cabral no Governo do Rio e também a Dilma no Governo Federal. Isso impediu que as negociações prosseguissem. Então, vendo que não ia conseguir nada, procurei me comunicar com outros países. Como tenho contato aqui nos EUA, iniciei um contato aqui e também na França", explicou o ex-presidente da CBDG. 

E não é apenas o governo brasileiro que Eric Maleson relembra sobre as mazelas de Nuzman. Ele promete ter enviado diversas cartas ao Comitê Olímpico Internacional exigindo intervenção por aqui, mas alega ter sido ignorado. Para ele, negligência por parte do COI. 

"A atitude do COI está sendo muito negligente. Eu acho, diante das provas. São provas concretas de vários países, não só o Brasil, mas como a França e outros países. Estava mais que na hora de o COI afastar de imediato, nem que seja temporário porque essas pessoas têm direito de defesa. Mas há provas suficientes para afastar de imediato, até mesmo para proteger a imagem olímpica, os patrocinadores que investem no esporte e também os atletas. Está mais do que na hora. Já passou da hora", esbravejou Eric. 

"Hoje eu mandei uma carta à presidência do COI solicitando uma imediata intervenção do COI diante das provas criminais e da prisão de membros da direção do COB. E pedi também que não só afastasse essa direção, mas que iniciasse uma intervenção imediata. Até para guardar o movimento olímpico. Caso contrário, seremos mais tarde culpados por negligência", acrescentou. 

Leonardo Gryner, diretor geral do comitê da Rio 2016 e braço-direito de Nuzman no COB, também foi preso na quinta. Os oficiais chegaram à casa de Nuzman, no Leblon, pouco antes das 6h da manhã (de Brasília), com um mandado de prisão temporária por cinco dias. Enquanto isso, outra diligência se encaminhou para o bairro das Laranjeiras, com um mandado para Leonardo Gryner. 

Nuzman é considerado o principal responsável pelo pagamento de propina a dois membros do COI na eleição do Rio de Janeiro como sede dos Jogos de 2016. No começo de setembro, ele foi encaminhado à sede da Polícia Federal para prestar depoimento na operação batizada como 'Unfair Play', braço da Lava Jato que investiga a corrupção durante o Governo estadual de Sérgio Cabral (2006 a 2014), mas permaneceu calado. 

Os investigadores de PF, Ministério Público Federal e Receita Federal - com auxílio das autoridades francesas - apontam Nuzman como elo entre o pagamento da propina de US$ 2 milhões (R$ 6,3 milhões, na cotação atual) para Papa Massata Diack através do empresário Arthur Soares, o "Rei Arthur", que está foragido. O cartola de 75 anos entregou passaportes às autoridades, entre eles um diplomático e um russo. 

A denúncia do MPF, por sinal, aponta que Nuzman teria vendido o seu voto em favor da candidatura de Sochi para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno em 2014 em troca de um passaporte russo para poder fugir das investigações brasileiras. 

"Uma intervenção do COI é necessária e urgente. Se vier, já vem com bastante atraso. Mas também é importante uma intervenção do governo federal brasileiro no sentido de evitar o mal pior", defendeu Eric Maleson. 

"Um dos problemas é o estatuto do COB. Tinha que fazer uma reforma total dele para impedir a formação de um grupo que vá a cometer ações ilícitas. Você tem que fortificar o estatuto, blindar ele, para que isso não aconteça. Uma forma de fazer isso é aumentar o colégio eleitoral e abrir de uma maneira em que várias chapas possam concorrer a presidência. E que ganhe a melhor, em um processo democrático. Essa é uma maneira", analisou o ex-dirigente, que mora nos Estados Unidos. 

"Mas esperar que essa direção que está lá resolva, corrija o que está errado, é impossível. Tem que haver uma intervenção. Essa direção toda tem que sair, mudar o estatuto atrás de uma intervenção, montar um novo colégio eleitoral para que aí sim uma nova direção limpa possa levar em diante. Porque essa direção que está aí não vai conseguir acertar esses pontos que estão fora de ordem. Até mesmo porque essas pessoas que estão lá na administração estão fechadas como Nuzman", finalizou. 

O ex-dirigente de esportes no gelo, que foi membro do Comitê Olímpico Brasileiro por 13 anos, foi afastado do seu posto em 2012 por determinação da Justiça do Estado do Rio de Janeiro, acusado de gestão temerária, falsificação de documentos e desvio de verbas. Para ele, não passou de golpe de Nuzman por conta de sua oposição ao poder do COB. 

"A partir do momento que eu passei a não apoiar o Nuzman e falei publicamente que não votaria nele, fui atacado por todos os lados. O COB entrou em contato com um atleta do atletismo, do declato, e o ofereceu benesses para entrar com um processo contra minha pessoa dizendo um monte de barbaridades. Estou há seis anos esperando justiça. Nosso processo ainda está lá no TJ-RJ. Não foi analisado ainda, não foi dada uma solução. Um juiz me tirou, outro me colocou de volta. Não sabem nem o que fazer comigo. Porém quero deixar bem claro que protocolei mais de 1.500 páginas comprovando minha inocência. Tenho certeza que no final de tudo isso, o juiz vai ver que foi um conluio entre o COB e um atleta para afastar sua oposição. Estou muito tranquilo com tudo isso porque as provas estão todas lá", reclamou Maleson. 

"Essa transformação do COB em balcão de negócios só é boa para um pequeno grupo. E essa não é a função. O COB não é uma empresa privada, é uma entidade sem fins lucrativos, que tem como objetivo massificar o movimento olímpico no Brasil, dos esportes olímpicos. E ela se utiliza de verba pública. E por isso mesmo está sujeita a todas as penas de entidades que se utilizam de verba pública", finalizou o delator de Nuzman.


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Editado por Política na Rede
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