quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Na CPI do BNDES, Eike confirma repasse de US$ 2,5 milhões ao PT


Imagem: Ailton Freitas / Ag. O Globo
Acusado de pagar propinas e cometer crimes financeiros, o empresário Eike Batista reiterou, nesta quarta-feira, à CPI do BNDES no Senado que fez doação de US$ 2,5 milhões para quitar gastos de campanha do PT, a pedido do então ministro da Fazenda Guido Mantega, mas não respondeu se repassou via caixa dois R$ 5 milhões para a eleição de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo, conforme declarou Monica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, em sua delação premiada.


O silêncio do empresário irritou o senador Lasier Martins (PSD-RS), único a fazer perguntas incisivas ao depoente na reunião, que ocorreu esvaziada e onde Eike foi tratado como uma espécie de consultor, sendo questionado a respeito dos setores produtivos no Brasil e razões da crise. Sobre a questão envolvendo Haddad, após consultar os dois advogados que o acompanharam, o empresário se limitou a dizer:

— Estou prestando esclarecimentos às devidas autoridades.

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— Para nós não. Nós não somos autoridades. O senhor sabe que CPI tem valor equivalente a processo penal? — perguntou Lasier, de forma enfática.

Questionado se as doações a campanhas políticas tinham como objetivo receber algum auxílio nos negócios, Eike afirmou que o interesse do grupo era chamar a atenção do governo para os próprios projetos:

— No fundo, o grupo estava interessado em fazer o governo enxergar a importância estratégica dos projetos.

Lasier Martins afirmou que Eike era “homem de copa e cozinha” do ex-presidente Lula, para perguntar sobre a proximidade entre os dois. O empresário retrucou, dizendo que as reuniões com o petista só começaram em meados de 2012:

— Foi quando comecei a vir mais até Brasília, porque o grupo não tinha recebido áreas de pré-sal. Queríamos até fazer parcerias com a Petrobras, mas éramos persona non grata.

Eike afirmou que não era “rato político” nem “filhote de partido” aos poucos senadores presentes ao depoimento – além do relator, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e do presidented a CPI, Roberto Rocha (PSDB-MA), passaram pela reunião apenas o senador Jorge Viana (PT-AC) e Lasier Martins. Com um discurso de distanciamento da política, o depoente se colocou em vários momentos como um empresário apaixonado pelo Brasil e também vítima de decisões governamentais equivocadas, como a retirada de áreas do pré-sal em lotes disputados pelo seu grupo:

— Sou brasileiro, sempre fui um soldado do Brasil, meus recursos estão aqui.

O empresário destacou que a contribuição do BNDES nos negócios de suas empresas na área infraestrutura e energia no país é pequena – de cerca de R$ 15 bilhões em projetos que consumiram R$ 120 bilhões. Afirma ainda que deu garantias para todos os empréstimos, por meio de bancos privados e com o próprio patrimônio.

— Dinheiro do BNDES é barato? É. Mas quando você tem que usar bancos privados para dar garantia, encarece até 2%.

Eike disse ainda que seus processos no banco estatal de fomento demoravam cerca de oito meses, dentro da burocracia normal e sem qualquer privilégio, e considera que as condições oferecidas a ele eram piores que as dispensadas a outras empresas brasileiras com negócios fora do Brasil. Entre as obras destacadas por Eike, está o Porto do Açú, no Rio.

Considerado há poucos anos um dos homens mais ricos do país, que perdeu praticamente todo o patrimônio de US$ 34 bilhões, Eike criticou a ingerência política nos negócios estruturantes no Brasil, sobretudo na Petrobras, e disse que o país erra ao insistir no modelo de estaleiros espalhados pelo território nacional.

— A Petrobras tem excelentes técnicos, mas precisam ser chamados: ‘vem cá, isso foi estudado em detalhes?’ Não pode ser uma decisão política, e sim técnica.

Ao ser questionado pelo senador Lasier por que foi preso, Eike manteve-se em silêncio.

— Não é um depoimento livre, é condicionado — reclamou o parlamentar.

— Nos países que passam por esses processos, revoluções, acontecem erros —tentou justificar Eike.

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Renata Mariz
O Globo
Editado por Política na Rede
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