domingo, 19 de novembro de 2017

Próximo da Black Friday, lojas aumentam descontos, mas também preços; preço final pode ficar maior


Imagem: Aloisio Mauricio / Fotoarena
Mesmo antes da Black Friday, período conhecido por concentrar notificações de propaganda enganosa, boa parte dos descontos que os consumidores encontram nos sites das grandes lojas não representa reduções de fato, apesar de muitas vezes trazerem descontos tentadores.


A Folha de S. Paulo monitorou o preço de 6.875 itens, por 15 dias (desde o dia 31), espalhados por nove das maiores lojas de varejo do país que comercializam eletroeletrônicos.

A análise dos dados mostra que as empresas fazem constantes alterações nos valores. O que chamou a atenção é que essa oscilação ocorre não apenas no preço final dos produtos –o "por" escrito nos cartazes de promoção. Há variações também no "de", o preço original.

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Esse tipo de variação ocorreu, por exemplo, com um celular Galaxy J5, com 16GB, no Extra.

De um dia para o outro, o "de", o valor que seria o ponto de partida, foi alterado. Passou de R$ 863 para R$ 1.699, crescimento de 97%. O "por" também subiu, indo de R$ 799 para R$ 972, uma alta de 22%.

Com a mexida nas duas pontas do preço, o desconto final cresceu de 7% para 42%, mas, na prática, o celular ficou mais caro.

Também foram detectados casos em que o valor final do item não mudou, mas o "de" subiu. Assim, o desconto cresceu sem que o preço real nem sequer fosse alterado.

O levantamento feito pela reportagem acompanhou exatamente o mesmo produto (cor, tamanho, além do código de identificação).

ARTIFICIAL

Na média, cerca de 12% dos itens monitorados na Casa Bahia e 11% no Pontofrio se enquadraram em algum dos tipos de aumento artificial de descontos. Foram os percentuais mais altos entre as lojas acompanhadas.

Se analisadas categorias isoladas de produtos, o volume chega a 22% dos fogões das Casas Bahia e 21% do Ponto Frio; na Ricardo Eletro, 35% dos micro-ondas tiveram esse tipo de oscilação.

As redes varejistas com menores percentuais de itens com desconto artificial foram Magazine Luiza (0,4%) e Fast Shop (1%).

O levantamento, no entanto, identificou que há também descontos verdadeiros. Outra vez Ponto Frio e Casas Bahia se destacam. Foram as redes com a maior quantidade de itens com descontos "reais" (o valor efetivamente cobrado caiu).

As empresas negam que estejam tentando enganar o consumidor. Afirmam que a determinação do preço do produto é complexo e dinâmico, por isso podem aparecer diferentes valores.

O Procon-SP, por seu lado, diz que são passíveis de autuação casos em que o varejista anuncia preços que jamais foram praticados, com o objetivo de simular promoção. Essa fraude é conhecida como maquiagem de preço.

Especialistas argumentam que o preço é formado por muitas variáveis. Também explicam que, não raro, as mudanças são estratégias de marketing para alimentar o desejo de consumo.

OUTRO LADO

As empresas que apresentaram as maiores oscilações de preços no levantamento realizado pela Folha afirmam que a precificação dos produtos é complexa e envolve critérios diversos. Elas negam que estejam tentando enganar o consumidor.

A Via Varejo, que administra Casas Bahia, Pontofrio e Extra, diz que as ofertas passam por "eventuais alterações" devido a "políticas mercadológicas que envolvem uma série de fatores".

Campanhas promocionais que ocorrem sazonalmente também impactam o preço, segundo a varejista.

A empresa cita ainda o conceito de market place (espaço na loja virtual reservado a lojas parceiras) para justificar as variações.

"É um ambiente administrado por grandes empresas de varejo no comércio eletrônico que permite a lojistas de todos os tamanhos ofertarem seus produtos em sites de alta visibilidade, viabilizando a pesquisa de centenas de ofertas em um único local e permitindo ao cliente comparar preços, condições de pagamento e prazos de entrega", diz a empresa em nota.

A Via Varejo conta com aproximadamente 3.000 lojistas, que comercializam em torno de 1,5 milhão de itens.

Sobre o celular Galaxy no Extra identificado pela reportagem, cujo preço subiu e o desconto apresentado ficou ainda maior, a empresa afirma que o item foi oferecido por vendedores diferentes.

Para o Submarino, é normal que haja flutuações nos preços, que podem ocorrer por causa do "marketplace".

Outra varejista citada, a Ricardo Eletro, diz que tem "o compromisso de buscar o melhor preço para seus clientes" e que sua política de precificação "deriva da intensa negociação de cada item e lote com seus fornecedores, podendo, portanto, sofrer oscilação de preços e de seus respectivos descontos segundo recomposição de estoque".

O Walmart.com também afirma que "preza pelo respeito ao consumidor e acredita que todo seu processo de precificação e promoções não confunde o consumidor, prova disso é o bom desempenho do Walmart.com apurado por sérias entidades de defesa do consumidor, como o Reclame Aqui e o Procon".

O Magazine Luiza afirma que não faz alteração de preços em seus produtos do e-commerce. O valor pelo qual o item é registrado permanece no site, segundo a empresa.

Procurada, a rede Fast Shop não se manifestou até a conclusão desta edição.

SAIBA MAIS

O levantamento da Folha coletou, dia a dia, o preço de 6.875 itens, de 50 categorias de produtos, nas oito lojas de eletroeletrônicos que tiveram mais reclamações na Black Friday de 2016, no site Reclame Aqui.

Foi incluído também o Ricardo Eletro, que não estava na lista, mas tem operação importante.

Inicialmente, o levantamento acompanharia 319 itens, entre os mais vendidos on-line. Como as telas dos sites mostram diversos outros produtos, optou-se por mapear todos que aparecessem.

Foram monitorados os preços de produtos exatamente iguais. Celular foi a categoria com maior número de itens (1.471), seguido de geladeira (1.355) e fogão (594).

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Daniel Mariani, Fábio Takahashi e Joana Cunha
Folha de S.Paulo
Editado por Política na Rede
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