sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Queima de arquivo no esquema do PT é investigação prioritária, diz delegado da Lava Jato


Imagem: Reprodução / Veja
O empresário José Roberto Soares Vieira desconfiava que algo de ruim estava para acontecer. Não era um simples pressentimento. No começo deste ano, ele vendeu a casa, num condomínio de alto padrão em Camaçari, na região metropolitana de Salvador. Passou a evitar atender ligações de números desconhecidos, afastou-se de colegas e raramente andava sozinho na rua. Contratou um motorista particular, que fazia as vezes de segurança, e procurou uma concessionária para mudar de carro. Aos vendedores, disse que queria trocar ou blindar seu Land Rover Discovery 4. Enquanto aguardava o orçamento, deixou o veículo na loja e alugou um Gol. Na manhã de 17 de janeiro, logo depois de sair da concessionária, Roberto do PT, como era conhecido o empresário baiano, visitou uma segunda loja de automóveis antes de percorrer 32 quilômetros até o trabalho. Eram os seus últimos minutos de vida.



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Sentado numa motocicleta vermelha, um homem de aproximadamente 1,75 metro, magro, com capacete na cabeça, trajando uma blusa azul suja de tinta e uma calça jeans surrada, esperava em frente à Green Transportes & Serviços, a empresa de Roberto do PT, localizada na região metropolitana de Salvador. O calor, por volta das 11h30, parecia não incomodá-lo. No dia anterior, a cena se repetira. O estranho parou no mesmo lugar, observou, esperou alguns minutos e perguntou a um funcionário da transportadora quando poderia encontrar o “senhor Roberto”. Inventou que sua mulher estava grávida, perdera um filho e precisava urgentemente de um emprego. Esperaria o tempo que fosse necessário para falar com “o senhor Roberto”, o único que poderia ajudá-­lo. Mas a sorte estava ao lado do empresário. Por duas vezes, o pistoleiro apareceu quando Roberto não estava. Por duas vezes, Roberto chegou e saiu da empresa quando o pistoleiro já havia ido embora.

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“Se eu chegasse às 11 horas, eu pegava ele, mas amanhã eu retorno”, disse o assassino ao vigilante Marcelo dos Santos, na segunda tentativa. Na manhã do dia 17, o matador estacionou sua moto nas proximidades da transportadora por volta das 7 horas. Quatro horas e meia depois, o empresário apareceu. O Gol branco alugado, ao que parece, confundiu o pistoleiro, mas a sorte, dessa vez, havia mudado de lado. O veículo não entrou na transportadora de imediato, como era o costume. Roberto pediu ao motorista para parar, observou o matagal que crescia nas imediações e fez um rápido comentário, quando notou o homem que o fitava em cima de uma moto. O motorista apontou o carro em direção à entrada da transportadora e buzinou para que o vigilante abrisse o portão. O pistoleiro se aproximou do veículo, dessa vez sem capacete.

Moreno, cabelo crespo ralo e de óculos, apresentou-se como “Cauã” e se ofereceu para capinar o terreno. O empresário disse que não precisava do serviço. O matador insistiu. Nesse instante, o motorista se virou para conversar com o vigilante na portaria. Em uma fração de segundo, o matador sacou uma pistola e gritou: “Trabalho o quê, vagabundo!” — e disparou nove tiros em direção à cabeça e ao tórax de Roberto. O motorista tentou sair do carro, mas não conseguiu se desvencilhar do cinto de segurança. Assistiu à morte do patrão, apavorado, inerte, enquanto o pistoleiro caminhava até a moto para então desaparecer.

O assassinato seria mais um de tantos que ocorrem todos os dias pelo Brasil afora, não fosse por um detalhe crucial: dois meses antes, a vítima havia delatado um esquema de arrecadação de propinas na Petrobras. Era testemunha de um braço de um caso investigado pela Operação Lava-Jato envolvendo o PT da Bahia. Quem chamou atenção para esse fato foi o juiz Sergio Moro. Num despacho assinado no último dia 26, o magistrado advertiu: “Não se pode excluir a possibilidade de que o homicídio esteja relacionado a esta ação penal, já que, na fase de investigação, o referido acusado aparentemente confessou seus crimes e revelou crimes de outros”. Traduzindo, Moro levantou a suspeita de que esse caso seja a primeira queima de arquivo, ou assassinato por vingança, da Lava-Jato. E tudo leva a crer que ele tem razão.

O juiz intimou o Ministério Público Federal a se manifestar sobre o episódio. A partir daí, o procurador Athayde Ribeiro Costa, da força-­tarefa da Lava-Jato, entrou em contato com o delegado Marcos de Castro Laranjeira Carvalho, da 20ª Delegacia Territorial da Polícia Civil de Candeias, para trocar informações. Em seguida, a Superintendência da Polícia Federal da Bahia destacou um agente e um delegado para integrarem o grupo de trabalho criado para apurar o homicídio, em investigação encarada como prioritária. “Temos a certeza de que esse crime está ligado à Lava-Jato. É a primeira execução de um delator do maior escândalo de corrupção da história do país”, afirma o delegado Carvalho.

O inquérito sigiloso, ao qual a revista Veja teve acesso, está avançado. Até o momento, já foram colhidos os depoimentos de cinco funcionários de Roberto do PT. Os relatos ajudaram os policiais a traçar o retrato falado do pistoleiro e montar a principal linha de investigação do que teria motivado o crime: vingança. “Ele demonstrava, vez ou outra, preocupação por ter servido de testemunha na Operação Lava-Jato. Certa feita, chegou a conversar com a depoente que, se algo viesse a ocorrer com ele, gostaria que a depoente ajudasse na continuidade da empresa”, contou em depoimento a secretária Ivonise Sales, que trabalhou com Roberto do PT por oito anos. Essa percepção foi reforçada pelo motorista do empresário morto. “A vítima sempre se mostrava preocupada com a questão de ter prestado depoimento à Polícia Federal”, lembrou Robson José de Santana Junior, também em depoimento.

As revelações que podem estar por trás da execução de Roberto do PT foram feitas à Polícia Federal em novembro do ano passado, quando ele foi conduzido coercitivamente para prestar esclarecimentos na 47ª fase da Lava-Jato, batizada de Operação Sothis. O empresário era suspeito de ter integrado um esquema de repasses de mais 7 milhões de reais de propinas oriundas de contratos da Transpetro, subsidiária da Petrobras. Ele confessou sua participação na trama e forneceu o nome dos demais envolvidos. Não chegou a fechar acordo formal de delação, mas, como seu crime era considerado menor (lavagem de dinheiro), depôs e foi liberado. Outros, porém, como o ex-gerente da Transpetro José Antônio de Jesus, acabaram presos. Roberto e José Antônio eram sócios de uma transportadora utilizada para esconder o dinheiro desviado da estatal.

O ex-gerente da Transpetro, conhecido como Zangado, mantinha laços com o sindicato dos petroleiros, apesar de não ser filiado ao partido. Retribuía a sustentação política com a arrecadação de propinas, de acordo com investigações do Ministério Público Federal (MPF). Segundo denúncia apresentada pelo MPF, José Antônio solicitava “vantagem indevida em razão do cargo (…) para si e para integrantes do Partido dos Trabalhadores”. Roberto do PT foi vice-prefeito de Ourolândia, distante 440 quilômetros de Salvador, entre 2011 e 2016. “Ele era uma das principais lideranças do PT na região e sempre era procurado pelos caciques do partido em busca de apoio”, diz o presidente da Câmara de Vereadores de Ourolândia, Eustáquio Freire Neto. Durante a sua campanha em 2012, Roberto contou com o apoio do então governador Jaques Wagner e e do deputado federal Nelson Pellegrino, ambos petistas. Desde que delatou o esquema, porém, foi esquecido pelos ex-companheiros. O PT nacional não emitiu nota sobre a morte do empresário nem se manifestou em relação à possibilidade de o assassinato estar vinculado à Lava-Jato. A direção estadual do partido, que governa a Bahia, também silenciou. Procurada, disse que não se manifestaria porque Roberto do PT “não era mais” do PT — “já tinha saído há muito tempo” (no cadastro do Tribunal Superior Eleitoral, o empresário continua registrado como filiado ao partido). Em Ourolândia, desde a execução, paira o silêncio sobre o crime. “A nossa vida está em risco”, disse Bruno, um dos dois filhos do ex-político. “Meu pai delatou gente poderosa.”

As investigações feitas até o momento apontam alguma relação do assassinato do empresário Roberto do PT com a Operação Lava-Jato? 
Temos a certeza de que esse crime está ligado à Lava-Jato. É a primeira execução de um delator do maior escândalo de corrupção da história do país. O empresário disse informalmente à sua secretária que se acontecesse alguma coisa com ele seria por causa da Lava-Jato.

Há outras evidências? 
Depois de prestar um depoimento à Polícia Federal, a vítima começou a se sentir ameaçada. Roberto estava vendendo o seu carro e queria comprar um veículo blindado. Por suas conversas com o pessoal da PF, fica claro que ele sabia de muita coisa. Seria natural, portanto, que esse arquivo fosse queimado. Os nove tiros evidenciam que foi uma execução. Estamos analisando outras provas, ainda sob sigilo.

A hipótese de crime político também está sendo considerada na investigação? 
Não temos, até o momento, nenhum indício disso. Apuramos também se houve alguma briga recente com fornecedores ou ex-funcionários da empresa de Roberto Soares, que tinha algumas dívidas. Mas o indício mais forte até o momento é mesmo a questão da Lava-Jato, porque, com seu depoimento, ele prejudicou muito a família do ex-­sócio, envolvido com o propinoduto. A propósito, o próprio Roberto Soares já registrou boletins de ocorrência contra o filho do seu ex-sócio. Eles viviam em conflito.

Alguma pista sobre o autor do crime? 
A probabilidade de prendermos o autor do crime é grande. Há uma mobilização conjunta das instituições para isso. Estamos numa força-tarefa, cruzando informações a todo momento. Essa investigação é prioritária. Afinal, é a primeira execução de uma testemunha da Lava-Jato. Isso pode abrir um precedente perigoso. Amanhã ou depois, podem morrer políticos, outros empresários, autoridades policiais ou juízes. Todos ficarão vulneráveis se não houver uma punição exemplar.

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Thiago Bronzatto
Veja
Editado por Política na Rede 
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