terça-feira, 5 de junho de 2018

Foragido da Lava Jato será ouvido pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara


Imagem: Jamil Chade / Estadão
Rodrigo Tacla Duran, advogado que afirma ter trabalhado para a construtora Odebrecht, vai denunciar nesta terça-feira, 5, o que ele chama de “cerceamento do direito de defesa” e questionar os métodos utilizados pela Operação Lava Jato.

Ele participará de uma sessão da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados, depois que a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conseguiu o incluir como testemunha no processo no qual o petista é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, supostamente recebido da empreiteira Odebrecht, para a aquisição de um apartamento em São Bernardo do Campo e de um terreno para a futura sede do Instituto Lula. Wadih Damous (PT-RJ) foi o autor do requerimento para a Comissão ouvir o advogado em audiência pública, por meio de videoconferência.

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Vivendo na Espanha e considerado foragido pelo juiz federal Sérgio Moro, Tacla Duran é alvo de processos no Brasil e mencionado em investigações recentes. O ex-presidente da Odebrecht Engenharia Industrial Márcio Faria da Silva, por exemplo, entregou aos investigadores da Lava Jato de Curitiba um fluxograma com informações sobre o caminho da propina paga a integrantes do PMDB em troca de um contrato milionário na Diretoria de Internacional da Petrobras. No fluxograma, a propina para os emedebistas saiu em parte das contas operadas pelo Setor de Operações Estruturadas com destino à conta de offshore GVtel, em nome de Tacla Duran.

“Vou esclarecer sobre diversos cerceamentos de defesa que eu sofri e venho sofrendo”, disse Tacla ao Estado. “São diversos, inclusive sobre documentos que sumiram dos expedientes brasileiros. Isso se agravou principalmente depois que dei um depoimento na CPI da JBS”, insistiu. 

Ele também questiona o fato de não ter sido ouvido como testemunha do Brasil. “Já fui testemunha em nove rogatórias internacionais. E, no caso do Brasil, no dia 4 de dezembro de 2017, compareci (à Audiência Nacional da Espanha) para atender a uma rogatória brasileira”, explicou. “E os procuradores que solicitaram para vir, não vieram. A minha colaboração com Peru, Equador e Andorra, por exemplo, se mostrou extremamente eficaz. Resultou em diversas prisões e até em renúncias de presidentes”, disse.

Sobre não ter sido autorizado a ser testemunha no caso de Lula, o advogado atacou o juiz federal Sérgio Moro. “Acho que não é caso de ser testemunha do ex-presidente Lula ou não. Acho que eu não seria aceito pelo juiz Sérgio Moro ou pela procuradoria para ser testemunha de ninguém”, disse. “Eles negam dizendo que não têm meu endereço aqui na Espanha. Mas, ao mesmo tempo, eles me localizaram para a rogatória que me mandaram em dezembro de 2017, e que eles não compareceram. Depois, o juiz Moro vai ao Roda Viva antecipar juízo ao meu respeito, pre-julgando, descumprindo o artigo 36, inciso 3o. da Lei Orgânica da Magistratura. Ela proíbe que um magistrado se manifeste publicamente sobre um processo em andamento. Eu não fui julgado. E sempre que for solicitado para colaborar com a Justiça, vou colaborar”, afirmou. 

Plano

Tacla Duran garante foi advogado da Odebrecht. Para isso, apresentou um documento na polícia de Andorra que mostra que a Odebrecht solicitou a abertura de conta corrente bancária para pagar seus honorários.

Para ele, a empresa tinha um “projeto de poder”. “Isso se repetia com diversos países. Eles apresentavam um pacote, com marqueteiro, no caso João Santana, com plano de obras para ser apresentado como um plano de governo, como projeto inclusive eleitoral”, disse. “E, para sustentar essas obras e projetos, uma gama de financiamentos por bancos internacionais, inclusive brasileiros. Tanto é verdade que esse pacote foi oferecido na República Dominicana, no Panamá, na Venezuela, em El Salvador, no Brasil. Havia um marqueteiro, um plano de governo e, na verdade, um plano de poder”, apontou.

MDB

Quanto à referência à sua conta no caso da investigação sobre a propina ao MDB, ele se defende. “Nesse caso do MDB, eu já apresentei os esclarecimentos e as perícias dos extratos adulterados, que foram usados na denúncia do presidente Temer, para a Polícia Federal em São Paulo. E até onde eu tenho conhecimento, esses documentos fazem parte de uma representação por parlamentares  à própria PGR contra os procuradores que levaram essa denúncia contra o presidente”, disse.

Sua avaliação é de que, diante da adulteração de documentos, ainda não se conhece de fato a dimensão da corrupção da Odebrecht. Além disso, Tacla insiste que só houve investigação no que se refere a questões de vantagens indevidas por meio de propina. “Mas, por exemplo, por meio de chantagem, isso não. “Eu observei que as investigações se centraram muito na questão de vantagens indevidas por propinas e corrupção. Mas não vi nenhuma investigação e nem em delação sobre chantagens praticadas pela empresa para obter vantagens obtidas”, disse.

“O mais comum era patrocinar garotas de programa, depois fotografar e filmar. Depois, usar contra as pessoas que eles necessitavam. Até mesmo contratar empresas de espionagem no exterior para levantar a vida de todo o tipo de autoridades e inimigos. Esse é o efeito Bisol, que estava escrito no celular do Marcelo Odebrecht que foi encontrado”, completou.

Procurada, a empresa garantiu que sua colaboração com as autoridades é “ampla, detalhada e contínua”. “A totalidade das informações de que a empresa dispunha foi colocada à disposição das autoridades”, disse. “A Odebrecht assinou Acordo de Leniência com o Brasil, Estados Unidos, Suíça, República Dominicana, Equador, Panamá e Guatemala. Implantou um sistema para prevenir, detectar e punir desvios ou crimes. E adotou modelo de gestão que valoriza não só a produtividade e a eficiência, mas também a ética, a integridade e a transparência”, completou.

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Jamil Chade
O Estado de S. Paulo
Editado por Política na Rede
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