sábado, 15 de setembro de 2018

Amoêdo ameaça expor chantagens do Congresso e nega comparação com Bolsonaro


Imagem: Marcio Komesu / UOL
Estreante em campanhas eleitorais, o candidato à Presidência da República pelo Novo, João Amoêdo, diz ter a receita para, caso eleito, conseguir governabilidade mesmo estando em um partido que ele ajudou a fundar. Para o ex-executivo de banco e administrador de empresas, basta denunciar à população eventuais "chantagens do Congresso" caso algum projeto do Executivo sofra obstáculos parlamentares em troca de cargos ou emendas.


Amoêdo figura com 3% das intenções de voto na pesquisa Ibope divulgada na última terça (11), tecnicamente empatado com candidatos de siglas mais tradicionais que o Novo, como o MDB do adversário Henrique Meirelles, ou com políticos com trajetória de décadas, como Alvaro Dias (Podemos). Dono de um patrimônio de R$ 425 milhões declarado à Justiça eleitoral, o maior, na atual campanha, ele não se coligou com nenhuma outra sigla.

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O candidato falou ao UOL em uma sala alugada pelo partido em um prédio comercial do Itaim Bibi, zona sul de São Paulo. Indagado sobre a falta de aliados na disputa, foi taxativo: conseguirá governar, se for eleito, "falando à população" pelas mesmas redes sociais que reservam hoje a ele o maior engajamento entre todos os presidenciáveis na disputa: "Vou falar à população: 'Estamos aqui, a gente aprovou o projeto de lei [tal], mas os partidos x, y ou z estão dizendo que só aprovam se tiver mais 20 assessores, ou se a gente der esse cargo'".

O "aqui" do candidato se refere a uma novidade que ele pretende implementar: reuniões do presidente com os parlamentares, no Congresso, às segundas-feiras, com transmissão em tempo real pela internet. No entendimento dele, isso seria fruto de um "processo de amadurecimento da democracia brasileira".

Para ele, não deve ser obstáculo à compreensão sobre esse tipo de 'toma lá, dá cá' nem mesmo o fato de o eleitor brasileiro, não raro, desconhecer as atribuições de cada poder na sociedade.

"Eles compreenderão isso previamente já elegendo um candidato totalmente fora do sistema. Haverá esse endosso a alguém sem tempo de TV [Amoêdo dispõe de cinco segundos no horário eleitoral gratuito], sem uso de dinheiro público. É que nos acostumamos, por muito tempo, a entender que a negociação só vai funcionar se for pelo toma lá, dá cá", salientou.

Semelhanças com Bolsonaro?

Alvo recentemente de críticas do líder nas últimas pesquisas, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), bem como de parte da militância bolsonarista, Amoêdo não descarta um eventual apoio do parlamentar em um cenário hipotético em que ele, e não Bolsonaro, siga para o segundo turno.

Embora favorável à flexibilização do porte de armas e reticente quanto a governar com o Congresso, posições defendidas pelo adversário, o candidato do Novo descarta qualquer outra semelhança com ele.

"Tenho um histórico muito diferente do dele", afirma. "Nossa política de segurança não tem a ver com a liberação de armas, pois entendemos que isso é responsabilidade do Estado", citou. "[Embora] Achemos que isso [porte de armas a civis] é uma liberdade que o cidadão tem que ter", definiu.

Outra diferença que ele afirma ter com o capitão reformado do Exército é quanto à trajetória pessoal. Bolsonaro está no sétimo mandato parlamentar; Amoêdo se apresenta como ex-estagiário do Citibank no Rio, na década de 1980, que, após "arriscar" em algumas oportunidades no mercado, chegou ao conselho de administração do Unibanco, fundido em 2008 com o maior banco privado do país, o Itaú. É da instituição financeira, por sinal, parte dos executivos que doaram à campanha do Novo.

"Passei os últimos 30 anos na iniciativa privada, trabalhando, pagando impostos, e Bolsonaro estava havia 30 anos como deputado, praticamente -- dentro do Congresso, vivendo de recursos públicos", assinalou.

Privatização da Caixa e do Banco do Brasil

Privatizar, aliás, é uma das prioridades do programa de governo do candidato. Especialmente bancos públicos como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, o que, segundo ele, aumentaria a concorrência no setor e diminuiria os juros cobrados do consumidor. "O fato de eu ter trabalhado em banco não me faz um defensor dos bancos", eximiu-se.

O que dizer, como candidato em busca de votos, aos eleitores que são também funcionários dos bancos que pretende privatizar? "Diria que eles tendem a ter remunerações melhores, porque, no processo de privatização, entendemos que a gestão será melhor com diretores colocados por condições técnicas, e não por indicações políticas, como na CEF e no BB", defendeu. "Consequentemente, [as instituições] poderão pagar salários melhores".

Mas como privatizar e manter funcionários? "A gente tem que manter os funcionários, né. Quem compra a instituição está 'comprando' os seus funcionários (...). Eles vão ser valorizados, como, aliás, foram os funcionários da Vale do Rio Doce [privatizada no governo FHC]."

"Em uma área de prestação de serviços, como é um banco, o valor está muito na qualidade do seu time", analisou. "Seria quase que um contra-senso alguém comprar e mandar seus funcionários embora (...). Mas garantia não há nunca, né, mesmo quando se está em um emprego, a pessoa não tem essa garantia [de que não será demitido]".

Amoêdo disse desconhecer quantos funcionários estão hoje nos bancos que ele promete privatizar. Segundo a Caixa, são 86.434 trabalhadores em todo o país; de acordo com o Banco do Brasil, são 97.675 funcionários. Somadas, as duas instituições públicas empregam hoje 184.109 pessoas.

Desigualdade salarial entre homens e mulheres

Questionado sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres em funções semelhantes, tema que ganhou relevância nos debates entre os candidatos à Presidência, João Amoêdo sugeriu que a questão é assunto de foro íntimo, cabendo a quem se sentir prejudicado procurar a Justiça. Já o Estado, disse ele, deve assegurar que a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) não seja violada, caso haja uma provocação judicial.

"Isso [a desigualdade salarial entre gêneros] deve ser combatido com mais liberdade econômica e com melhor infraestrutura às mulheres, investindo em creches -- apenas 30% das crianças de 0 a 3 anos estão em creches, e a gente sabe que a mulher tem dupla jornada", afirmou. "Deveria ter uma flexibilidade maior de definição e horário de trabalhar em casa para homens e mulheres, mas não tenho dúvidas de que isso ajudará muito mais as mulheres."

Sobre as mulheres que porventura enfrentem esse tipo de discriminação e não demandem creche, Amoêdo resumiu: "Não sei se essas mulheres estão tendo esse problema, não sei quantos casos há. Mas acredito que é só ir à Justiça: o Estado tem que fazer cumprir a lei."

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Janaina Garcia
UOL
Editado por Política na Rede
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