quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Pesquisas apontam: corrupção do PT fez a periferia migrar para Bolsonaro


Imagem: Ed Alves / D.A Press
A bandeira vermelha com estrela branca foi aposentada por Francisco das Chagas Reis, 35 anos. Nascido em Santa Rosa do Piauí (PI) e morador de Águas Lindas (GO), ele admite: “Fui petista roxo”. Agora, pela primeira vez na vida, não quer nem ouvir falar no partido que ajudou a colocar no poder quatro vezes. “Sou 100% Bolsonaro.” Desempregado há dois anos, o ex-vigilante vive de bicos no setor de construção civil, onde os serviços têm sido escassos. Ele explica por que vai votar no candidato do PSL, para quem faz campanha voluntária. “O PT era majoritário em Brasília, mas foi covarde e corrupto. Não quero um país comandado de dentro da cadeia.”

As pesquisas eleitorais mais recentes mostram que Bolsonaro se aproxima da população mais pobre, que votou no PT nas últimas eleições. Segundo o Ibope, em todo o Brasil, na faixa dos que ganham até um salário mínimo, Bolsonaro subiu de 13% para 19% em relação ao levantamento anterior, de 26 de setembro.

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Na periferia do Distrito Federal, a aceitação de Jair Bolsonaro é evidente. “Aqui, todo mundo é 17 na cabeça”, resume o comerciante Tarcísio Herculano de Lima, 40 anos. Do lado de dentro do mercadinho que mantém no bairro Sol Nascente, de onde atende os clientes separado por uma grade, o paraibano de Catolé do Rocha diz que a corrupção, o desemprego e a violência desiludiram os mais pobres. “Nosso país está falindo por causa de político corrupto. Não concordo com algumas opiniões do Bolsonaro. Por exemplo, não sou favorável a armar a sociedade. Mas ele é ficha-limpa e tem boas propostas para a segurança também. A gente sofre muito com a falta de segurança pública.” Os pais do comerciante moram na Paraíba e votariam em Fernando Haddad, mas Tarcísio disse que já os convenceu a apostar no candidato do PSL.

O cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer diz que não se esperava que a população mais pobre se aproximasse de Jair Bolsonaro. Para ele, mais do que a identificação com o programa de governo do candidato, é o sentimento antipetista que mudou a direção do voto dessa parcela do eleitorado, antes fiel ao partido comandado por Luiz Inácio Lula da Silva. “O ‘pai dos pobres’ agora está na prisão. Os eleitores foram muito afetados pela corrupção, surgindo duas ondas. Uma é de que ‘todo político é corrupto e vou votar no ficha-limpa’. Bolsonaro, apesar dos cinco mandatos como deputado federal, não é da tradicional elite política. Então, preenche isso”, avalia. Ao mesmo tempo, Fleischer destaca a rejeição ao PT e ao líder da agremiação como fator que pode pesar na escolha de todas as faixas de renda
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Criação de emprego

O especialista também não descarta que a população mais pobre priorize programas de criação de emprego no lugar das políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, carro-chefe do PT nas últimas quatro eleições. “Algumas pessoas estão com Bolsa Família há seis, sete anos, e não conseguem um emprego, o que é muito frustrante”, avalia. Pai de oito filhos com idades entre 6 meses e 17 anos, o ex-petista Francisco das Chagas Reis diz que dispensa o auxílio do governo. “Meus filhos não vão viver de Bolsa Família. O que queremos é emprego”, afirma. O enteado dele, Mateus Lopes Lima Inajoza, 23, concorda. Com ensino médio e desempregado desde que saiu do Exército, em 2016, o ex-eleitor de Dilma Rousseff vislumbra um futuro melhor. “Estou desempregado há dois anos. Minha mãe é pedagoga e conseguiu emprego nesta semana: de copeira. Olha o que ela conseguiu”, lamenta.

O cientista político César Alexandre Carvalho, sócio da CAC Consultoria, destaca que a campanha de Bolsonaro mirou em um tema caro à população em geral, mas, particularmente à parcela mais exposta à violência urbana: a segurança pública. “As propostas são genéricas, mas ele explora muito o ponto da segurança e encontrou eco junto às parcelas mais pobres”, avalia. Embora indecisa, a costureira Maria do Socorro Leal, 58 anos, está inclinada a votar em Jair Bolsonaro e destaca a proposta do candidato, de rever o Estatuto do Desarmamento, como ponto positivo do capitão reformado.

“Desarmaram todo mundo e deixaram só os bandidos armados”, acredita a moradora de Santa Luzia, bairro ainda sem asfalto e com pouca infraestrutura urbana na Estrutural. “Ladrão chega aqui e faz a maldade que quiser, porque a gente não tem como se defender. Fico o dia inteiro fechada, atrás de grade. Não podemos deixar uma bicicleta na rua, porque a qualquer hora do dia somos roubados”, conta. A região em que ela mora registrou a maior taxa de crimes violentos e letais do DF em 2017: 46,1 casos em cada 100 mil habitantes, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social. “Tem gente que acha que ter arma dentro de casa é perigoso, mas não acho. Eu me sentiria mais segura”, diz.

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Paloma Oliveto
Correio Braziliense
Editado por Política na Rede
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